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Posts Tagged ‘morte’

Por Renato Silvestre

Apesar de toda a aspereza cotidiana da grande metrópole, há momentos onde o cinza dos prédios e das ruas são invadidos por cores únicas e suavemente comoventes.

Um leve sorriso no rosto, quase que sacana, pode até passar despercebido, mas denuncia uma felicidade presente e diferente dos demais dias. Entre esbarrões no metrô lotado e a pressa de um relógio que quase sempre atrasa, ainda que adiante, um singelo presente carregado nas mãos ajuda a desabrochar um lado diferente do ser e de todo seu entorno.

Inegável também é a certeza de que nem todas que empunham tal doce elemento estão, de fato, alegres por o terem recebido. Algumas até trocariam o presente pelo valor referente à aquisição do mesmo. Puro capitalismo, pura loucura cotidiana que transforma nossos espíritos, nos endurece e nos leva a cegueira, ou quem sabe, pura necessidade.

Há ainda a mentira e a hipocrisia de quem dá com uma mão para comover, enfraquecer e em segundos tomar tudo de assalto. Uma pobreza de caráter inaceitável.

No vai e vem de pessoas, desejos e sentidos, flutuantes e quase que insignificantes, as flores, em grande parte vermelhas, ajudam a iluminar o sombrio e gélido mundo das grandes corporações, das enormes economias, dos sapatos engraxados e gravatas perfeitamente alinhadas. Por um dia, apenas um dia, toda a frieza da gigantesca cidade, que reduz cada um dos seus a seres ainda menores do que grãos de areia, de certo modo ganha um colorido revigorante.

O cinza de outrora, ao menos nesse dia forçadamente escolhido para homenageá-las, perde todo o sentido, assim como não faz sentido ver apenas em um dia a razão para a existência de tão belo ser. Por um momento, ruas, avenidas e prédios se tornaram mais vivos. Mulheres desfilaram por passarelas de concreto e alegraram a palidez existente. Por instantes, flores tomaram o lugar de Ipods, Ipads, Iphones e toda essa viciante parafernália tecnológica. Ao menos por um dia, um mísero, mas diferente dia, ninguém pode deixar de reparar nas flores, pequenas e necessárias porções alucinógenas de alegria!

No outro lado da rua

A dor ainda não havia cessado, o impacto do dia anterior era sufocante, mas nada o poderia tirar dali. Enquanto carros apressados passavam e alguns buzinavam em sinal de apoio, ele continuava sustentando a razão do seu ser, o direito de ir e vir em segurança, o sonho de viver sem que de repente, sem mais nem menos, fosse violentado por um caminhão, ou quem sabe, um ônibus desgovernado.

Pessoas ainda tentavam entender o que havia acontecido. Outras, simplesmente, ao olhar para o local faziam suas preces. Vez ou outra, curiosos se aglutinavam e sacavam dos bolsos e bolsas seus celulares fotográficos, afinal, por que perder esse clique?

Curiosamente, todo o barulho daquele trânsito infernal de pessoas e veículos parecia silenciar conforme se aproximava do fatídico ponto. Um respeito e uma comoção que humanizava a mecânica e digitalizada avenida. A poucos metros dali, aos pés do homem que defendia justamente suas ideias e assim garantia o direito de todos, começava a se formar um enorme emaranhado de sensações e preces.  Em cada pétala uma oração, em cada flor uma vida.

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Texto inspirado nas flores recebidas pelas mulheres no Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março, e naquelas deixadas em uma grade próxima ao local do acidente que vitimou fatalmente uma ciclista na Avenida Paulista em São Paulo, em 2 de março.  

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Por Renato Silvestre

Está rodando na internet, já virou assunto nas redes sociais e até matéria nos telejornais um lamentável, bizarro e escroto vídeo (que não vou reproduzir aqui) de uma enfermeira (isso mesmo, enfermeira) que maltrata seu pequeno cachorro até a morte. Uma sequência de imagens desprezível e que piora ainda mais pelo fato de que toda a violência contra o animal é praticada na frente de uma criança.

Vou falar a verdade, nunca fui fã de cachorro, não sei distingui-los pela raça e até prefiro não tê-los por perto – tenho certo medo, confesso –, mas é vergonhoso o que essa pessoa faz com o pobre animal. Poxa, se alguém assume a responsabilidade de tomar conta de um animal, que o faça com responsabilidade, que o trate com dignidade e lhe dê condições de viver saudavelmente.

Não recomendo a ninguém que veja tais cenas, pois não acrescentam em nada, entretanto, essas mesmas imagens revelam esse lado podre do ser humano, que tem a capacidade de lidar com um animalzinho indefeso como se fosse um lixo descartável.

Oras, se não quer ter um animal de estimação que não o tenha, se quer descartá-lo facilmente vai comprar um “bichinho virtual”. Infelizmente a humanidade segue nesse processo de “emburrecimento coletivo”, onde as pessoas tendem a valorizar mais os seus Ipads, Iphones ou Iseiláoque do que as vidas, sejam elas de seus animais domesticados, sejam de seus iguais, de seus filhos.

O caso do cachorrinho é só uma pequena amostra da crueldade desse tipo ser humano, que não se “contenta apenas” em maltratar seres teoricamente menos evoluídos, mas que também descarta filhos em lixões e “brinca” com seus semelhantes, torturando-os e fazendo-os de cães, simplesmente porque representam outra cultura, falam outra língua ou crêem em outros deuses – ou será que ninguém se recorda dos famosos casos da prisão Abu Ghraib, onde militares americanos humilharam e abusaram de presos iraquianos? Pode até não parecer, mas a distância entre aquele que mata um cachorro por pura maldade e o que empilha iraquianos em uma prisão de guerra é apenas uma farda, ou seja, poder.

Nessas horas a única coisa que me vem à cabeça é uma frase do filósofo inglês Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. E assim, segue a humanidade, eternamente presa a esse “mundo cão”, a lei do mais forte, do mais poderoso e do mais endinheirado. Antes que retornemos às nossas casinhas de cachorro virtuais ou, quem sabe, voltemos a nos deliciar com nossas comidinhas de cachorro industrializadas, enlatadas ou congeladas, deixo apenas uma última pergunta, entre os homens e seus cachorros, quem é o irracional?

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Por Renato Silvestre

No último sábado, 23 de julho, quando a notícia da morte de Amy Winehouse surgiu na internet, estranhamente não tive uma reação de surpresa, o que seria comum em casos como esse. O falecimento da jovem e extremamente talentosa cantora, comoveu os fãs e pode ter surpreendido os familiares, no entanto, infelizmente, parecia ser uma notícia já envelhecida.

Amy, tal qual, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Brian Jones, Robert Johnson e Kurt Cobain, alguns dos mais criativos músicos da história, morreu aos 27 anos. Uma assombrosa curiosidade e coincidência. Ainda que nem todos tenham oficialmente a causa de suas mortes atrelada às drogas este elemento, que incessantemente faz vítimas pelo mundo todo, esteve presente durante suas curtas vidas. Talvez por isso, o caso de Amy não tenha espantado os mais atentos.

A genialidade e qualidade musical de cada um deles ficaram para a eternidade. Obras repletas de clássicos e um legado absurdamente positivo que ninguém pode apagar. Nesses tais 27 anos de vida, todos eles viveram como se o segundo seguinte fosse realmente seu último segundo. Um imediatismo que rendeu frutos influenciando gerações, mas que aparentemente movia cada um desses artistas na busca constante pelo prazer exacerbado – se é que ele existe – seja pela música ou por meio das drogas. Pareciam saber que aquele resto de whisky no copo poderia ser seu último gole desperdiçado.

É triste ver talentos como Amy partirem tão cedo. Independente de sua música ou comportamento agradar a uns ou outros, não há como negar a altíssima qualidade da cantora. Sei que ainda não foi comprovado que sua morte aconteceu em virtude de uma overdose ou algo semelhante, mas sua partida serve de alerta para muitos. O tortuoso mundo das drogas é um verdadeiro labirinto, onde se perder é comum e achar uma saída é praticamente impossível. Não sou, não fui e possivelmente não serei usuário, mas conheço essa realidade por relatos de amigos e parentes, e percebo que não é nada fácil sair ileso deste mundo!

Também tenho 27 anos, por isso lamento e imagino o quanto cada um desses artistas poderiam ter vivido e contribuído para a música como um todo. Por outro lado, a pouca idade talvez tenha sido o bastante para Amy, e em sua viagem particular, intensa e criativa, o único descanso possível realmente parecia ser a morte. Descanse Amy, descanse!

A música que parece refletir a essência da cantora: ” They tried to make me go to rehab / But I said ‘no, no, no'”

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Por Renato Silvestre

Após quase dez anos do início de uma busca incessante por vingança, o anúncio oficial da morte de Osama Bin Laden, mentor intelectual dos atentados ao World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, encerra um ciclo para os americanos. O vilão morreu, parte da história acabou, mas a dor sentida por milhares de mortes no pior ataque terrorista da história jamais se apagará e a ferida continuará aberta e exposta para que todos vejam.

A verdadeira celebração que aconteceu na última madrugada pelas ruas das principais cidades dos Estados Unidos, com bandeiras hasteadas, hino sendo cantado, fotos de Osama sendo queimadas e gritos de guerra bradados em alto e bom som, são mostras de que lá como cá ou acolá somos todos muito iguais. Recordo claramente que após aquela manhã de 11 de setembro no Brasil, os primeiros telejornais já divulgavam festas em ruas de cidades do Oriente Médio que comemoravam a queda de um dos principais símbolos do que chamavam de “grande satã”. Algo que também foi bem observado pelo amigo jornalista Bruno Gutierrez em seu blog.

Em meio à euforia americana seria preciso lembrar ainda que o vilão morto, outrora cresceu no cenário político-religioso do Afeganistão graças ao apoio ianque para livrar a população das “garras da União Soviética” durante a Guerra Fria, e mais, que para que um morresse muitos milhares tiveram que morrer anteriormente. Até por isso, na realidade esse deveria ser muito mais um momento de reflexão e readequação da política de guerra dos Estados Unidos do que propriamente de comemoração.

O que virá agora? Quantos outros Osamas serão caçados? Quantas vidas humanas se perderão para que os vilões sejam punidos? Questões não muito claras, principalmente considerando que o Ocidente ainda não sabe quais serão os próximos passos das inúmeras organizações terroristas que se multiplicaram após o 11 de setembro e que viam em Bin Laden um líder e agora um mártir. Retaliações, reações, ataques e contra-ataques, novos atentados e mais inocentes mortos, até quando? E a denominada Guerra ao Terror continuará como justificativa para os abusos humanitários realizados em Guantánamo? Muitas dúvidas neste momento.

A certeza é que a celebração da morte de Bin Laden tende a exaltar ânimos e exacerbar o sentimento antiamericano existente em parte do mundo, tanto que o presidente Barack Obama, mesmo antes de realizar o fatídico anúncio, mandou reforçar a segurança e manter em estado de alerta todas as bases militares dos Estados Unidos, além de emitir comunicado pedindo cuidado aos americanos fora do país.

Estranho dizer, mas de uma forma ou de outra, Osama deixa um legado, obviamente maléfico, uma herança maldita que seguirá martelando a todos inocentes envolvidos ou não nessa guerra, o medo crescente do outro, do diferente, de sociedades e costumes diferentes, a amplificação de um ódio mútuo que faz crescer exércitos e aniquilar vidas. Heróis ou vilões, pobres humanos, pobres homens, eternamente e cada vez mais lobos de sua própria espécie!

“Why don’t presidents fight the war? Why do they always send the poor?”

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Por Renato Silvestre

 

Quando Arnaldo Jabor diz que “José Alencar humilhou a morte” isso não se diz apenas da boca pra fora. O ex-vice-presidente, muito bem sucedido em sua vida pessoal, nos negócios e na política, simplesmente resolveu tomar diante de uma perspectiva sombria a melhor das atitudes, “viver e não ter a vergonha de ser feliz e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”, como diz trecho de bela música de Gonzaguinha.

Provavelmente sem querer, “Zé”, como o ex-presidente Lula carinhosamente o chamava, passou aos brasileiros uma mensagem de sobriedade, serenidade, força de vontade e persistência diante das adversidades. Nada daquela coisa piegas de “sou brasileiro e não desisto nunca”. Sua luta era real, lutando contra um inimigo íntimo que insistiu em maltratá-lo durante seus últimos 13 anos de vida. Uma guerra travada por meio de 15 intervenções cirúrgicas e retiradas de tumores no rim, no estômago, na região do abdômen, na próstata, além de uma cirurgia no coração.

Obviamente, uma pessoal com poucos recursos financeiros ou dependente das filas do sistema público de saúde do Brasil possivelmente não teria grandes chances de sobreviver durante tanto tempo nessa batalha. Mas as mazelas da saúde pública no país é tema para outro post.

A morte de um político de tamanha envergadura moral criará um vazio dentro deste cenário repleto de maus exemplos. Nós, eleitores brasileiros, podemos por vezes fingirmo-nos de cegos e fazermos opções dignas de filmes de comédia, mas por outro lado, é inegável a capacidade da população desta terra tupiniquim de se reconhecer no sofrimento alheio, de tentar compartilhar de uma dor indivisível e, de fato, se comover.

Entre as idas e vindas de Zé ao hospital, o que mais se pode ouvir pelas ruas, bares ou nos sofás das salas mais confortáveis as cadeiras mais humildes nas periferias, foi a expressão de apoio e assombro diante de um homem que ignorou sua condição social, política e estratégica para simplesmente lutar pelo direito de viver. Um Zé, que antes de tudo, deixa seu nome na história política e econômica deste país, principalmente porque, como ele mesmo dizia: ‎”Não tenho medo da morte. Tenho medo da desonra”.

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