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Por Renato Silvestre

Calor, muito calor! O suor do cotidiano penetra a roupa batida e desbotada. A pele molhada é o sinal de mais um dia difícil, mais um passo dado e uma linha escrita no complexo livro da vida.

Ônibus lotado, metrô, trem, trânsito, tudo parado. O sol, despertador natural da humanidade, já ameaça se recolher no horizonte. As horas passaram, o dia se foi, a casa ainda está longe, distante algumas estações, quadras, ruas, ladeiras e talvez vielas.

É preciso correr, chegar logo. Como estarão as crianças? Como estarão os pais? A saudade bate no peito como o sino da igreja central. A cada badalada um suspiro, a cada silêncio um grito.

apagao-e-enchentes1Medo. Por que temer? A natureza não perdoa a irresponsabilidade humana. Como um relógio, ainda que já desregulado, ela pode tardar, mas não falha jamais. O fim da tarde é celebrado nos céus com trovões e relâmpagos. Um tenebroso prelúdio para o que há de vir.

A casa ainda transborda a quentura da tarde no cair da noite, quando, como em aplausos para o mais belo espetáculo, a chuva toca o telhado. O cheiro de terra molhada e o vento refrescante invadem o lar.

Mas, há algo errado? Não, tudo está em seu devido lugar. Por que chove tanto? A límpida água de outrora dá lugar ao barro. Um mar de lama invade a comunidade. O lixo, escondido embaixo do tapete por meses, em minutos ressurge. A água sobe, o desespero aumenta. Tragédia anunciada!

Solidários se dão as mãos. O que fazer? A quem recorrer? E as autoridades, onde estão? Longe, bem longe!  O seio dos seus palácios luxuosos não tem vista para o oceano de lamentações que escoa na periferia.

Sentados em suas cadeiras pomposas, de braços cruzados, preocupados com a oposição, com o joguinho sujo, com os conchavos, as alianças, perdendo o sono pensando em como acomodar tantos interesses, eles se negam a ver. Fingem ser quem não são e fazer o que não fazem. O beijo na criança suja e no velho suado em época de campanha é logo limpo com lenço importado.

enchentesEnquanto o poder corrompe cada vez mais os já corruptíveis, a água sobe, e desce levando sonhos, esperanças, verdades e mentiras. A tristeza em lágrimas amargas percorrem os rostos assustados da criança e do herói popular. A alegria, sempre presente, dá espaço a um sentimento de nojo, de indignação, de impotência. Casas destruídas, luzes de emergência, inocência perdida em meio ao lamaçal.

Um novo dia nasce e o sol expõem promessas não cumpridas e a busca por vidas perdidas. Na televisão as imagens parecem repetidas, em meio às enchentes os anônimos tornam-se números e o choro compõem um cenário real onde o personagem principal apenas pergunta: “Até quando?”.

 

Texto inspirado na tragédia anunciada que é vivenciada por milhões brasileiros todos os anos. As chuvas de verão provocam a cheia de rios, o desmoronamento de áreas onde habitam populações numerosas e enchentes terríveis. Enquanto isso o poder público pouco faz no tocante a planos de emergência, retiradas de populações de áreas de risco e investimento em habitações dignas. Isso sem falar da falta de coleta de lixo, um dos pontos ressaltados pelo cantor Zeca Pagodinho nos vídeos abaixo. Ele, aliás, que agiu com muita sabedoria e solidariedade ajudando o povo de sua terra.  


 

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