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Posts Tagged ‘devaneio’

Por Renato Silvestre

Faltavam poucas horas para o início de um novo ciclo, mas ainda havia tempo de mudar o que parecia certo. Na noite anterior, enquanto seu cérebro, mal refrigerado por um ventilador de décadas passadas, derretia em meio ao calor do verão, sonhou com combinações numéricas estranhas. Quem sabe não poderia ser um sinal?

timthumbAcordou. Levantou rapidamente. Buscou um pedaço de papel qualquer e recorreu à velha caneta esferográfica largada na cabeceira. Anotou cada uma das dezenas mágicas e com todo o cuidado colocou o pedaço de papel embaixo de seu travesseiro. Tomou um copo de água e voltou a dormir. Antes rezou, afinal, aquele sonho… ah, aquele sonho… só poderia ser mesmo um sinal divino. Quem sabe Deus não havia olhado pra ele e dito: “Esse cara é você!”.

Pensou em como seria bom mudar de vida, largar a modesta casa construída ao longo de anos, deixar de lado a bicicleta, companheira de todas as horas. Dali só levaria seu tão estimado cão. Chamava-o de Fiel, um vira-lata que certo dia entrou em sua casa para nunca mais sair. Já fazia planos. Compraria uma mansão na praia, uma fazenda em sua terra natal, um carrão branco igual o do Neymar. Quem sabe até andaria com as mulheres que o craque andava. Queria sair do anonimato, talvez virasse artista, afinal todos não diziam que “para viver no Brasil com um salário mínimo tinha que ser artista”. Conhecia bem esta realidade, orçamento apertado sempre.

Pela manhã, despertou. Calçou os velhos chinelos, correu para o banheiro, lavou o rosto, engoliu um pedaço de pão com café frio e tal qual São Jorge, “montado em seu cavalo”, no caso em sua bicicleta, rumou em busca da vitória. Destino? A casa lotérica mais próxima. Tudo bem, não era tão perto assim. Precisava atravessar vielas, subir e descer ladeiras, avenidas movimentadas, até chegar.

0Após meia hora, avistou uma fila gigante. Por instantes pensou se toda aquela gente poderia ter sonhado o mesmo sonho. Sem muitas opções, tomou seu lugar e distraiu-se em conversas com outros animados apostadores. Falavam de fazer uma fézinha no fim do ano, começar o ano de bolsos cheios, mudar de vida, e de números… Putz, números?! Passou a mão pelos bolsos da calça e notou que havia deixado os números em casa. Em desespero, montou na bicicleta e partiu o mais rápido que pode de volta ao seu lar. Pensava que ainda haveria tempo de pegar o papel e voltar à casa lotérica. A aposta, o sonho, os milhões, tudo estaria garantido.

Abriu a porta e deu de cara com Fiel. O danado parecia estar comendo alguma coisa. Era um pedaço de papel. Era o pedaço de papel. Os números, os milhões… Agarrou o cão, abriu sua boca e descobriu que já era tarde. O bicho já havia engolido seus números da sorte. E agora? Fazer outro jogo? Tentar a sorte com outros números? Exaurido pela jornada, desistiu! Pensou em matar o cachorro. Caiu na cama e apagou. Torcia para que tudo fosse apenas um pesadelo!

dinheirodolarEnquanto fogos já indicavam a chegada de um novo ano, o latido assustado de Fiel o acordou. Ainda chateado com o ocorrido pela manhã, saiu da cama, foi até o cachorro e o pegou no colo. Lembrou-se de todas as dificuldades que passara ao seu lado, olhou atentamente para Fiel e notou algo. Entre os dentes do bicho um pedaço babado de papel. Era um número. Um 13. Seria um sinal? 13. 2013. Era um sinal! Esperançoso, com o cão nos braços, foi até a janela e admirado com as cores no céu, gritou: “Sou um homem de sorte, Fiel. Sou um homem de sorte!”.

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