Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘desigualdade’

Por Renato Silvestre

Ainda cansado pela batalha do dia anterior, ele acordou assustado. Os músculos do corpo ainda refletiam os esforços da jornada passada. Rápido banho, a velha roupa já batida e rua. Era hora de recomeçar aquela cansativa rotina. Caminhada, ônibus, trem e metrô, sempre acompanhado, ainda que anonimamente, por outros tantos guerreiros. Dias de luta, dias sem glória.

Nem bem começava o dia e o suor em seu rosto já era nítido. Desnorteado, por instantes sentia-se alegre ao ver a grande logomarca de “sua empresa” estampada logo adiante. Uma alegria passageira. Apesar disso, sabia que ver aquela cena se repetir era um sinal de que continuava empregado e de que todo o trajeto até ali, de certa forma, valia a pena.

Correu para os vestiários, colocou sua armadura e partiu. Era hora de assumir seu posto. O cheiro inconfundível de fritura, outrora tão bem quisto por ele, agora agia como um anestésico, pronto para mantê-lo atento apenas ao que era previamente combinado.

“Sem picles!”; “Quero queijo extra”; “Me dá um catchup”; “Batata grande”, “Me vê mais mostarda”; “Sem cebola, por favor”. Como que programado a responder a cada um daqueles comandos tentava ser o mais rápido que conseguia. Quem sabe no final do mês não ganhava espaço naquele quadro posto na parede. Tinha esperanças.

De repente uma nova ordem. Precisava transportar até outra unidade de “sua empresa” uma lata com aquela deliciosa massa de sorvete, ou de algo para misturar nele.  Bem, não sabia ao certo. Também não lhe deram um carrinho para levar aquele peso. Em segundos, era ele e a multidão. O vai e vem de pessoas parecia deixá-lo tonto. Eram apenas dois quarteirões, mas parecia uma eternidade. O sol ainda brilhava alto, quando em um descuido, seus dedos molhados pelo suor escorregaram, a lata escapou de suas mãos e caiu.

Poderia ter acontecido em sua casa, em sua rua, no ônibus ou no trem, mas não ali. O centro nervoso da maior cidade do país, aquela avenida simbólica com aqueles prédios que cheiravam poder e dinheiro. Enquanto abria os olhos se refazendo do susto pode perceber a reação das pessoas. “Coitado!”; “Nossa, que cagada!”; “Putz!”; “Essas empresas abusam desses meninos”. E enquanto escutava ele retirava seus óculos recobertos por aquele material esbranquiçado. Notou que sua armadura também havia se manchado inteiramente com aquela sujeira. Da lata caída no chão, o produto escorria pela calçada. A luta estava acabada. Como pagaria por aquilo? Será que descontariam de seu salário? Mas descontar de onde, se já não ganhava nada?

Coberto pela vergonha da sujeira estampada em sua roupa, enquanto mulheres elegantemente trajadas e homens devidamente vestidos em seus finos ternos passavam a rir da situação, ele decidiu voltar a “sua empresa”. Por um momento pensou em demissão, chegou a treinar o pedido, mas não podia, era sua primeira oportunidade. O que diria para sua mãe? Envergonhado, humilhado e decidido, apenas pediu desculpas aos patrões. Com certa relutância foi perdoado, não sem antes confirmar que o prejuízo seria debitado de seu “rico” salário.

À noite, já de volta a sua casa, enquanto a chuva lá fora projetava goteiras intermináveis em seu quarto, ele finalmente conseguiu se libertar. Antes de dormir, o beijo da velha mãe o despertou do pesadelo daquela tarde. Pensou em chorar, mas não havia tempo. Tinha que dormir. Em poucas horas uma nova batalha o aguardava. Em seus sonhos a mesma pergunta de todos os dias: “Débito ou crédito, senhor?”

________________________________________________________________________

Texto inspirado em cena real que vi acontecer na Av. Paulista em São Paulo. A propósito, eu não era um daqueles elegantemente vestidos com finos ternos!

Read Full Post »

Por Renato Silvestre

Eis que em um país onde o salário mínimo tem um acréscimo de 5,08% chegando ao “extraordinário” valor de R$ 545,00, algo estranho acontece em uma pequena Ilha de Lost do Litoral Paulista.

Os excelentíssimos vereadores municipais de Cubatão aprovaram na última terça-feira, 29 de março, um reajuste de 50% nos salários a serem recebidos a partir de 2013, ou seja, os próximos “abençoados” pela população cubatense passam a ganhar cerca de R$ 10 mil reais.

Sei muito bem que cada coisa é uma coisa e que cada reajuste é um reajuste, mas convenhamos, o que faz dos engravatados mais merecedores do que qualquer um trabalhador brasileiro?

Enquanto a cidade mais parece a Lua com buracos que são verdadeiras crateras, bairros que enchem a cada chuva mais pesada, falta de segurança, problemas na área da saúde e ausência de opções de lazer, os “nobres representantes do povo” permanecem preocupados com seus próprios interesses, com seus próprios ternos e, obviamente, com seus próprios bolsos. Afinal de contas, o que é um salário de R$ 4.817,70, recebidos atualmente, entre tantas outras ajudas de custo? Não é o suficiente?

Cubatão, dentro de todas as suas injustiças sociais, desigualdades e pobreza é apenas um protótipo do que é nosso querido Brasil, com suas politicagens e incoerências. Vale aos cubatenses apenas lembrar quem são os digníssimos vereadores da atual legislatura que aprovaram o “santo salário” e responder nas urnas na próxima eleição. Quem sabe excluindo os “queridos representantes do povo” do direito de usufruir deste novo e pomposo benefício.

Fica a idéia!!!

Mais informações: http://www.atribuna.com.br/noticias.asp?idnoticia=86282&idDepartamento=5&idCategoria=0&sms_ss=twitter&at_xt=4d92767caf42b7a2,3

Read Full Post »